Mais nem sempre é melhor no ambiente corporativo

Mais nem sempre é melhor no ambiente corporativo

Compartilhe:Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Google+

O tema de hoje se conecta e complementa o artigo da semana passada do meu blog, onde falei sobre abordagem inclusiva em processos de transformação organizacional.

A impressão que tenho é que nos dias atuais o profissional e a empresa que parece ser mais valorizado(a) é aquele(a) que faz mais. Este fazer mais é algo que se transforma em ação a todo momento sem interrupções. Assim como na meditação, um dos grandes desafios que percebo seja nas empresas ou na vida de uma forma geral, é fazer uma pausa e ter tempo para “não fazer nada”. Para meditar é necessário parar para meditar, pois é uma prática que requer um tempo dedicado a isso. Tenho consciência que essa proposta pode ser polêmica e por isso é importante analisar melhor esta ideia.

Domenico De Masi, em seu livro “Ócio Criativo”, cujo a primeira publicação foi em 1997 já abordara que em um futuro próximo (talvez agora, 2018?!) as pessoas que souberem se “libertar” da visão tradicional de trabalho como obrigação e conseguir combinar tempo livre e estudos poderá ter resultados interessantes na carreira e na vida pessoal. Um caso conhecido é a política do Google de permitir que os funcionários dediquem 20% do seu tempo para projetos pessoais. E desta política surgiram projetos de diferentes portes como é o caso do SIYL Institute. Claro que o Google é uma empresa enorme e que até mesmo por isso pode se “dar ao luxo” de implementar este tipo de prática, mas o que eu gostaria de propor neste artigo é aprofundarmos a questão de como vemos o tempo na modernidade, em especial dentro das organizações.

O tempo de trabalho, de uma forma geral, segue o famoso “horário comercial” entre 08:00 – 18:00. Pessoas que não trabalham dentro deste intervalo ficam por vezes até deslocadas do que é o “normal” e esperado do trabalho.  Sinto que um sinal de mudança neste aspecto é entrega X prazo final. Cada vez mais os trabalhos se assemelharão à projetos e mais do que considerar a remuneração e o trabalho por hora, o foco será no “pacote completo”. Dessa forma, uma tarefa pode ser desenvolvida por uma pessoa levando 3 horas enquanto outra poderá levar o dobro do tempo ou até mais. Importante ressaltar que existem áreas de atendimento ao público/consumidor, departamentos distintos, porém com a tecnologia e com novos formatos mais do que remuneração/hora talvez migraremos para remuneração/entregas o que muda completamente a lógica da “duração da jornada de trabalho”.

Isto exige um alinhamento com a legislação trabalhista vigente em cada país e ao mesmo tempo analisar a questão de produtividade. Levantamento realizado pela FGV apresenta o Brasil na 50ª posição dentre 68 países pesquisados com relação ao quesito produtividade no trabalho. Dentre algumas possibilidades para este baixo rendimento de acordo com o estudo estão baixa capacitação das pessoas, falta de investimento em educação formal e não olhar para inovação como alavanca estratégica para os resultados do negócio.

Produtividade na minha visão vai além dos pontos apresentados pela pesquisa citada anteriormente. Ser produtivo não é estar 100% ocupado. Podemos ter nossas agendas completamente tomada com coisas que não estejam gerando resultado. Neste quesito quem já não se sentiu importante dizendo: “minha agenda está cheia”. O reforço vem daquilo que é valorizado, consciente ou inconscientemente. Por outro lado, não estou sugerindo para ter um tempo totalmente livre, pois todo excesso pode ser prejudicial. A grande questão é considerar como podemos nos tornar mais efetivos(as), fazer as coisas que são necessárias de forma a simplificar nossa vida e nosso trabalho alcançado mais resultados com menos esforço.

No Aikidô, arte marcial que pratico, a grande chave é “a força da não força”. Os senseis (algo como mentores dentro do contexto empresarial) vivem repetindo e enfatizado: “Tire a força”; “Relaxe quando estiver em situação de pressão” etc.  Vejo que no mundo que vivemos, colocar uma pausa na “produtividade tradicional” é difícil. É quase um mantra que a pessoa produtiva é aquela que faz mais coisas em menos tempo. Parece que precisamos (e por vezes queremos) chegar em algum lugar.  Minha visão é diferente: produtividade é alcançar mais resultados fazendo menos. Aqui cabem algumas perguntas: Aonde queremos chegar? Por que queremos chegar lá? Isto é importante para mim?

Vejo o aumento do número de organizações requisitando treinamentos corporativos utilizando meditação e mindfulness para líderes e colaboradores. Existem várias abordagens para levar práticas como essas para dentro de contextos profissionais, entretanto uma crença que comumente surge por pessoas que não conhecem estas técnicas é: sentar e meditar pode parecer improdutivo, passivo e de certa forma uma inação.  Aqui existe uma “ilusão” de quanto mais fazemos, mais rápido teremos sucesso, sem nos perguntarmos o que é sucesso para nós. Caso alguém “não estiver em ação” no trabalho é taxado(a) como preguiçoso(a), sem comprometimento ou devagar demais. Quanto mais fazemos, muitas vezes não temos oportunidade para parar e criar espaço com objetivo de esvaziar a mente e analisar sobre hábitos e comportamentos que temos sobre ideias estabelecidas, práticas que já estão sendo feitas por muito tempo e isso acaba eliminando a oportunidade de surgir insights e novas possibilidades, onde a criatividade pode emergir para fazer as coisas de forma diferente e gerar resultados diferentes.

O quanto apreciamos e permitimos no ambiente corporativo a expressão “Eu não sei”? Parece que temos que saber tudo, não demonstrar nenhuma vulnerabilidade e, principalmente, fazer, fazer e fazer. Ação é a palavra de ordem. Quando eu não posso expressar uma dúvida ou fazer uma pergunta, somos direcionados para um modelo de termos que saber tudo e neste momento “não cabe mais nada”. Como diz a parábola, precisamos “esvaziar a xícara”

Gostaria de finalizar este post deixando algumas reflexões: o quanto a liderança está sendo valorizada por estar com a agenda totalmente ocupada? A cultura corporativa tende a premiar o que “faz mais”, o multitasking?  “Quem é modelo em produtividade e efetividade na organização que trabalha? Quais são os hábitos dele(a)?” “O que é alta performance para você? Para a organização que você trabalha?”

 

 

Fabrício César Bastos |Eu ajudo líderes e colaboradores individuais a melhorarem sua performance profissional por meio de treinamentos nas áreas de liderança, gestão e estratégia|

fabricio@flowan.com.br

www.flowan.com.br

 

 

 

 

 

Deixe uma Resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *